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Mahatma Gandhi - “Distribuição Equitiva Através da Não-Violência” - 1940

No artigo da última semana sobre o Programa Construtivo mencionei a distribuição eqüitativa de riqueza como um dos treze itens.

A implicação real da distribuição eqüitativa é que cada homem tenha o necessário para suprir suas necessidades naturais e nada mais. Por exemplo, se um homem tem uma digestão difícil e requer apenas um quarto de uma libra de farinha para fazer seu pão e outro precisa de uma libra, ambos devem estar em condição de satisfazer suas necessidades. Para realizar esse ideal toda a ordem social teve de ser reconstruída. Uma sociedade baseada na não-violência não pode alimentar nenhum outro ideal. Talvez não sejamos capazes de realizar o objetivo, mas devemos tê-lo em mente e trabalhar sem descanso para nos aproximar dele. Quanto mais progredirmos rumo ao nosso objetivo, mais teremos satisfação e felicidade, e também nessa mesma medida teremos contribuído para realizar uma sociedade não-violenta.

É perfeitamente possível que um indivíduo adote esse modo de vida sem esperar que outros o façam. E se um indivíduo pode observar uma determinada regra de conduta, segue-se que um grupo de indivíduos também pode fazer o mesmo. Devo enfatizar o fato de que ninguém precisa esperar por outro para adotar um caminho correto. Os homens geralmente hesitam em começar algo se sentem que o objetivo não pode ser alcançado em sua totalidade. Semelhante atitude mental é, na verdade, um obstáculo ao progresso.

Consideremos agora como a distribuição eqüitativa pode ser realizada através da não-violência. O primeiro passo é que aquele que fez desse ideal parte de sua existência realize as mudanças necessárias em sua vida pessoal. Deve reduzir suas demandas a um mínimo, tendo em mente a pobreza da Índia. Seus ganhos devem estar isentos de desonestidade. Deve renunciar ao desejo de especulação. Sua moradia deve ser adequada ao novo modo de vida. Em toda esfera da vida deve exercer um autodomínio. Quando fizer tudo o que é possível em sua própria vida, somente então estará em condição de pregar esse ideal entre seus colegas e vizinhos.

Na verdade, na raiz dessa doutrina da distribuição eqüitativa deve estar o princípio de que os ricos são depositários da riqueza supérflua que possuem. Isso porque, de acordo com a doutrina, eles não podem possuir uma rúpia a mais do que seus vizinhos. Como isso pode ser realizado? De forma não-violenta? Ou deveriam os ricos ser privados de seus bens? Para fazermos isso, teríamos, naturalmente, que recorrer à violência. Essa ação violenta não pode beneficiar a sociedade. A sociedade ficará mais pobre, pois perderá os dons de um homem que sabe acumular riqueza. Portanto, o caminho não-violento é evidentemente superior. Ao homem rico será deixada sua riqueza, da qual usará o razoavelmente necessário para satisfazer suas necessidades pessoais e será o depositário do restante a ser usado para a sociedade. Nesse argumento, pressupõe-se honestidade da parte do depositário.

Logo que um homem se vê servidor da sociedade, ganha para proveito dela, gasta em benefício dela, então a pureza entra em seus ganhos e há ahimsã em sua empresa. Além disso, se as mentes dos homens se voltam para esse modo de vida, ocorrerá uma revolução pacífica na sociedade, e isso sem qualquer amargura.

Pode-se perguntar se a história registra, em alguma época, essa mudança na natureza humana. Certamente, essas mudanças ocorreram em indivíduos. Talvez não se possa apontá-los em toda uma sociedade. Mas isso apenas significa que, até agora, não houve uma experiência, em ampla escala, em não-violência. De um modo ou de outro, tomou conta de nós a crença errônea de que a ahimsã é primordialmente uma arma para o indivíduo e seu uso deve, portanto, limitar-se a essa esfera. De fato, não é esse o caso. A ahimsã é decididamente um atributo da sociedade. Convencer as pessoas dessa verdade é, sem demora, minha tarefa e empenho. Nessa época de milagres, ninguém dirá que uma coisa sa ou idéia é imprestável porque é nova. Dizer isso é impossível porque é difícil e, de novo, não está em consonância com o espírito da época. Coisas jamais imaginadas estão sendo vistas diariamente, o impossível está sempre se tornando possível. Hoje em dia, estamos sendo surpreendidos constantemente com as incríveis descobertas no campo da violência. Mas afirmo que descobertas ainda menos imaginadas e aparentemente impossíveis ocorrerão no campo da não-violência. A história da religião está cheia de exemplos semelhantes. Tentar erradicar a religião da sociedade é coisa impossível. E se essa tentativa fosse bem-sucedida, significaria a destruição da sociedade. A superstição, os maus costumes e outras imperfeições passam de uma época para a outra e sempre arruínam a religião. Eles vêm e vão. Mas a religião fica, porque a existência do mundo, em sentido amplo, depende da religião. Pode-se dizer que a suprema definição de religião é a obediência à lei de Deus. Deus e Sua lei são termos sinônimos. Portanto, Deus significa uma lei viva e imutável. Ninguém jamais o encontrou. Mas avatares e profetas deram à humanidade, por meio de seus tapasya, um tímido vislumbre da Lei eterna.

Contudo, se, apesar do esforço extremo, os ricos não se tornarem guardiões dos pobres, no verdadeiro sentido do termo, e estes forem cada vez mais espezinhados e morrerem de fome, o que se deve fazer? Na tentativa de encontrar uma solução para esse quebra-cabeça, ressaltei a não-cooperação não-violenta e a desobediência civil como meios corretos e infalíveis. Os ricos não podem acumular riqueza sem a cooperação dos pobres na sociedade. O homem tem convivido com a violência desde o começo, pois herdou do animal essa força em sua natureza. Somente quando subiu do estado de quadrúpede (animal) para o de bípede (homem) é que o conhecimento da força da ahimsã penetrou sua alma. Esse conhecimento cresceu dentro dele de forma lenta mas segura. Se esse conhecimento penetrasse e se disseminasse entre os pobres, eles se tornariam fortes e aprenderiam a libertar-se, por meio da não-violência, das esmagadoras desigualdades que os conduziram à beira da fome.

Não preciso escrever sobre a não-cooperação e a desobediência civil, porque os leitores do Harijabandhu estão familiarizados com essas e seu funcionamento.

 

 

Harijabandhu, 24 de agosto de 1940.

Harijan, 25 de agosto de 1940.
 
 
 
Do livro: Ishay, Micheline R. (org.). Direitos Humanos: Uma Antologia – SP Edusp, 2006 p. 575 a 577.
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