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Premio Alceu de Amoroso Lima de Direitos Humanos. Saudação de José Oscar Beozzo a Maria Luiza Marcilio - 2009

Saudação do Padre José Oscar Beozzo a Maria Luiza Marcilio
Sessão solene de outorga da Menção Honrosa do
 PREMIO ALCEU DE AMOROSO LIMA DE DIREITOS HUMANOS
Universidade Cândido Mendes - Rio de Janeiro- 16/12/2009


 

 Apresentação do Reitor, Professor Doutor Cândido Mendes:

[...]
 

A questão dos Direitos Humanos com Maria Luiza Marcilio não vai apenas a tudo o que está na primeira linha da visão individual da cidadania, mas ela promove a criança, ela apóia a família, ela apóia a ambientação da coletividade em função do verdadeiro sujeito de Direito que representa essa condição. Ela tem inclusive a preocupação com a criança nesse entendimento: como é que uma nova geração vai responder e atentar à essa condição[...].
Quem é Maria Luiza Marcilio? Ela é a presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP. C´est n´est pas peu. Professora Visitante das Universidades do Texas, de Berkeley, de Porto Rico, do Minho e de Paris e de varias Universidades brasileiras, mas, sobretudo dirigindo a Pos Graduação de Mestrado e Doutorado na USP ela é Doutora pela Sorbonne.  Se quisermos ver prospectivamente o trabalho de Maria Luiza Marcilio, esta no fato de que ela criou e dirige ela dirige a Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da USP.
 Para saudá-la peço ao Padre José Oscar Beozzo.

 

Saudação do Padre José Oscar Beozzo

O Dr Candido Mendes lembrou que Maria Luiza é a Presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP. Não é pouco. A Comissão foi fundada em 1998. Passaram-se vários Reitores; mudaram-se as orientações da Universidade e ela foi sempre reconfirmada à frente dessa Comissão, mostrando que a confiança no trabalho que ela dirige ultrapassa as linhas ideológicas, muitas vezes tão fortes, dentro de uma Universidade, no reconhecimento do trabalho efetivo à frente dos Direitos Humanos.
Eu queria pedir licença para dizer algumas coisas, antes de entrar em sua trajetória à frente dos Direitos Humanos. Pessoalmente, temos juntos uma historia de convivência, de trabalho que lá vai para mais de 30 anos.
Eu encontrei pela primeira vez a Maria Luiza Marcilio de maneira absolutamente fortuita. Um amigo do México, Enrique Dussel, presidente da Comissão de Historia da Igreja na América Latina, a CEHILA, deveria fazer uma conferencia na USP, durante a SBPC, no ano de 78, naquele tempo difícil da Ditadura. A reunião da SBPC acabou indo, no ano seguinte, para a PUC de São Paulo, porque o governo militar fechou as Universidades públicas. D. Paulo, num gesto de grandeza, abriu a PUC e pagou caro por essa abertura, porque queimaram, com a invasão policial, o TUCA. Na última hora, fui convocado para substituir o Dussel. Tocou-me fazer a conferencia sobre a Igreja de Medellin a Puebla. Estávamos às vésperas da realização da 3ª conferencia geral do episcopado Latino Americano, em Puebla. Tocou-me falar dessa trajetória de dez anos da Igreja, de Medellín à Puebla num auditório cheio,com mais de 500 pessoas. Quando terminei, Maria Luiza me procurou, pediu meu endereço e começamos a nos corresponder. Ela teve a extrema gentileza de traduzir do francês para o português, minha tese em Louvain sobre os movimentos universitários católicos e que saiu publicada, pelas Vozes, com o título: “Cristãos pela Universidade e na Política”.
 Depois a gente acabou trabalhando juntos na CEHILA- Comissão de Estudos da Historia da Igreja na América Latina. Ela abriu uma janela importante para dimensões para as quais nos não estávamos tão atentos: a questão da Mulher, da Família e da Sexualidade. Acabamos fazendo um Simpósio na USP, junto com o CEDHAL- Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina, centro que foi fundado e dirigido por muito anos por ela mesma e acabamos publicando um livro que é referencia nessa relação entre Mulher, Família e Sexualidade e a Historia da Igreja. Maria Luiza também organizou os textos do Simpósio que a CEHILA promoveu nos Estados Unidos, sobre a Historia da Mulher Pobre na América Latina, contribuição importante que depois editou também esse livro.
E nossa relação continuou entrelaçando nossos caminhos.
Também devo a ela o ter sido minha orientadora na tese de doutorado na Historia Social da USP. O livro depois foi publicado numa co-edição com a Editora da Universidade Candido Mendes, o Centro Alceu Amoroso Lima para a  Liberdade e a UVA de Sobral, no Ceará.
Nos perguntaríamos: o que traz Maria Luiza para a Historia dos Direitos Humanos no Brasil? Eu diria que quando ela fez sua tese de doutorado na Sorbonne sobre o Povoamento e a População da Cidade de São Paulo, entre 1750 e 1850, ela inaugurou para o Brasil algo inédito em nossa historiografia que é a Historia Demográfica, trabalhando nos Registros Paroquiais e nos recenseamentos, entre 1750 e 1850.
Qual o significado para os Direitos Humanos dessa tese, e ainda depois, de tudo que ela desenvolveu e trouxe para o Brasil nas pesquisas de Demografia Histórica?
É a primeira vez que aparece na Historia todos os esquecidos, os anônimos da Historia, porque nesses registros paroquiais de Batismos estavam todos os escravos da cidade de São Paulo, todas as crianças consideradas naturais, pessoas que a sociedade escondia. Ela trouxe para a luz do dia todo esse mundo marginalizado que representava 60% da cidade de São Paulo e que eram os filhos de todas as classes sociais, desde os escravos até as classes mais altas. Eu diria que o primeiro dos Direitos dos Humanos é o direito à memória. Quando apagamos a memória fazemos das pessoas um nada. E essa Historia Social que cobria toda a população, não apenas uma elite, os bandeirantes, os “Homens Bons” da Colônia, mas ia dos escravos aos forros, dos Homens livres aos não livres, dos homens às mulheres, às crianças ilegítimas, às expostas, compondo um quadro aonde você traz todos os anônimos da historia para a frente do cenário, e dizendo a essas pessoas que são gente, são atores sociais, são pessoas humanas.
Maria Luiza inaugurou para o nosso país essa Historia da qual não havia nenhuma tradição até então. Ela traz essa técnica da França, mas para mim, ela refunda essa Historia Demográfica, avança em direção aos esquecidos da Historia do Brasil, com esse livro sobre o Povoamento da cidade, mas depois com o livro tão importante da Historia social das crianças abandonadas, das crianças entregues às instituições de caridade.
 Mas ela não parou ai. Ela fez a Historia de outras populações esquecidas. Ela estudou os Caiçaras do litoral Norte de São Paulo, no momento onde o turismo, a especulação imobiliária estava varrendo da memória social esse grupo social.
Eu diria que essa foi a primeira contribuição importante de Maria Luiza Marcilio para os Direitos Humanos: dizer que as pessoas têm Direito à memória e que a Historia deve ser uma Historia abrangente, inclusiva, que não deixe de fora nenhum grupo social e que privilegia aqueles esquecidos.
A segunda contribuição importante a meu ver é o fato de Maria Luiza ter fundado um centro de Demografia Histórica para a América Latina toda— o CEDHAL— na USP, trazendo registros difíceis de serem acessados e que hoje estão lá na USP, em microfilmes, fichas e que permitem uma base de dados para a investigação.
Eu destacaria o fato de que ela tem sido uma professora, uma educadora fecunda nesse campo difícil de orientação de teses e que ela nunca o fez individualmente. Eu sei porque pude participar das discussões. Ela colocava todos os alunos juntos para cada um expor o seu projeto de tese, o andamento de sua tese, ouvir as críticas uns dos outros. Ela agrupava um corpo de pesquisadores que entre si fecundavam mutuamente as pesquisas uns dos outros, o que  exige e toma um tempo enorme de quem aceita ser orientador e Maria Luiza fez isso com maestria, ao longo dos anos, permitindo o surgimento de teses primorosas, investigando as populações, as doenças, a mulher, os escravos, as pessoas de idade, as crianças, etc. Ela fundou uma Historia Social baseada em pesquisas sérias, em arquivos até aqui inexplorados e ela continua a sua missão de educadora na área de Direitos Humanos da USP.
A Comissão de Direitos Humanos da USP não é apenas uma Comissão que se reúne uma vez por ano para conceder o Premio USP de Direitos Humanos, Premio prestigioso, mas Maria Luiza tornou a Comissão um espaço fecundo de documentação sobre os Direitos Humanos. Quem entra no portal da Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da USP pode encontrar todos os grandes documentos e as reflexões na área dos Direitos Humanos.
Maria Luiza colocou a Comissão a serviço da Educação em Direitos Humanos, até mesmo em áreas que a gente diz que são impermeáveis e tem alergia a que se fale de Direitos Humanos. Maria Luiza tem todo um programa de formação em Direitos Humanos junto à Policia Militar de São Paulo e tem acompanhado pesquisas e orientações nessa área difícil de se combinar. A Policia, como corpo do Estado, goza do direito de legítimo exercício da força. Infelizmente, as violações de Direitos Humanos nessa área são maciças. Em lugar de proteger o cidadão, a polícia, às vezes, ameaça o cidadão. Ela se empenhou na área difícil de educar as policias, desde os que estão entrando na corporação até os coronéis, os mais graduados.
Queria terminar dizendo que Maria Luiza Marcilio tem  na sua função de cidadã, um olhar muito amplo. Ela dirige agora e é Presidente do Instituto Jacques Maritain do Brasil, substituindo nesse encargo, Alceu Amoroso de Lima Filho, o filho do mestre Dr Alceu. O Instituto é um centro aberto a debates, aos problemas contemporâneos, que promove encontros, sessões de estudos. Maria Luiza não se furta a esse trabalho. Numa sociedade de mercado, ela atua em lugares que não rendem financeiramente absolutamente nada e exigem um tempo de muita dedicação.
Creio que essa é a marca mais importante de Maria Luiza: a extrema generosidade com que ela acode a tantas demandas, para não dizer na área da Igreja, onde Maria Luiza tem dado cursos de Historia da Igreja na Faculdade de Filosofia de São Bento, em São Paulo.
Agora mesmo, acabei de pedir a ela se poderia assumir a cadeira de Historia da Igreja do ITESP- o Instituto de Teologia de São Paulo- onde se formam os religiosos todos de São Paulo. Tenho certeza de que se ela for para lá, dará essa mesma contribuição competente, generosa e de abertura para aqueles que estão se preparando para a vida religiosa. Vem  para ai alunos de muitas partes, inclusive da África, de Angola, de Moçambique, e da Ásia para estudar no ITESP.
Agradeço de coração por ter tido o privilegio de privar da amizade de Maria Luiza Marcilio desde 1978 e também por sua orientação intelectual. Muito obrigado Maria Luiza.

 

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