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A Globalização, os Direitos Humanos e o Cristianismo - 2008

MARCÍLIO, Maria Luiza:  

A Globalização, os Direitos Humanos e o Cristianismo
Globalization, Human Rigths and the Cristianism
RDT- Revista Dominicana de Teologia: IV (7)- Jul / Dez 2008: 75-79.

 

Neste ano de 2008 o mundo está celebrando os 60 Anos de um dos maiores documentos escritos pelos homens: A Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

2008 é um ano de efemérides ligadas à libertação dos homens sob diferentes vieses. Lembremo-nos de algumas delas.

 

Em 2008, celebram- se os 200 anos da chegada precipitada da família real portuguesa ao Brasil, que acelerou o processo da nossa independência política. Este evento propiciou a criação dos primeiros cursos superiores, da primeira Biblioteca pública e da suspensão da censura no Brasil, da abertura do comércio externo brasileiro, todos sinais propícios para a emancipação nacional.

 

Em 2008 celebramos os 120 anos de Abolição da Escravatura, regime de nódoa indelével na História do Brasil e que barrou o processo da participação, com direitos iguais de cidadania e de liberdade a todos os brasileiros. As conseqüências maléficas da escravidão são sentidas até hoje.

 

Em 2008, iniciamos as comemorações do centenário do nascimento de Dom Helder de Barros Câmara (1909-2009), o Bispo dos despossuídos, poderoso incentivador da abertura social e da participação do laicato, particularmente dos leigos pobres, na vida da Igreja Católica.

 

Celebrar efemérides não é um rito vazio. Essa festa litúrgica pode ajudar a humanidade a encontrar parâmetros para a promoção da dignidade do Homem e da Mulher.

 

É sobre o valor da dignidade humana que falaremos aqui.

 

A globalização é hoje uma realidade. Seu desafio decisivo é se deixamos que nela se instaure e vença a lei do mais forte, tornando-a uma desgraça para o mundo todo ou se nós lutamos para conseguir humanizá-la, dinamizando em seu interior os valores sociais e de justiça, os valores que compõem e dignificam a pessoa humana. Valorizando e promovendo os valores humanos, a globalização pode tornar-se um fator de promoção da paz, de entendimento, de solidariedade entre homens e mulheres e de justiça social.

 

O mundo contemporâneo está em plena confusão. Nunca, antes, houve tamanha reviravolta na humanidade inteira. Forças tremendas: culturais, espirituais, econômicas, sociais, tecnológicas e políticas estão em movimento. Restam, ao mesmo tempo, na beira de uma decadência geral, possibilidades sempre presentes e mesmo soluções imprevistas de criação de um mundo novo, de uma civilização.

 

O ser humano contemporâneo está dividido entre diversas necessidades, entre imposições sociais e carências pessoais. Ele sente o tempo todo o hiato entre os ideais que possa ter e a realidade que, na maior parte das vezes, não corresponde a esses sonhos e ideais. As grandes marcas da globalização e do capitalismo atuais são seguramente a publicidade, a tecnologia, a máquina, o centralismo no mundo do mercado e o terrível impulso fundamental em favor da celebridade e da prosperidade ou enriquecimento rápido. As saídas, muitas vezes, apresentam-se pela opção aparentemente fácil, do prazer momentâneo e enganoso do sexualismo, do hedonismo, da embriaguez, do jogo, da droga. O homem de hoje esta dividido entre a obrigação do sucesso e da felicidade material de um lado e a procura de um sentido para sua vida e a consciência de sua própria fragilidade e limitação, de outro.

 

Dentre seus ideais estão os valores morais e humanistas que promovem a dignidade da pessoa humana, aos quais se contrapõe, muitas vezes, à realidade em que está inserido. Estas contraposições se traduzem, por exemplo, entre direitos à Justiça Social, de um lado, e a situação real de fome, de pobreza, dos precários serviços de educação, de saúde e de previdência; entre o valor da Tolerância e a situação real das discriminações de todo tipo: raciais, de sexo, de idade, de origem; entre o valor da Solidariedade no plano nacional e internacional e a situação das contínuas guerras, guerrilhas, ações terroristas, radicalismos, fanatismos que contrapõe os homens entre si; entre valor da Liberdade e a situação real da opressão, da escravização presentes em tantos setores sociais; entre respeito ao Meio Ambiente e a devastação das últimas matas tropicais, o desperdício e a poluição da água potável, a sujeira nos mares, a falta de reciclagem de materiais industriais; entre a Paz e o amor e a violência contra os mais frágeis (a criança, o idoso, o portador de deficiência, a mulher), o homicídio, a banalização da vida humana, a tortura.

 

A maior, a mais abrangente Revolução de valores e de atitude que houve na História da Humanidade foi, indubitavelmente, a realizada pelo Cristianismo. O cristianismo irrompe como uma novidade nova no contexto do mundo antigo. Os princípios básicos da Liberdade, da Igualdade, da Solidariedade entre os homens todos e de todos os homens inseriram-se no mundo, através dos ensinamentos contidos no Novo Testamento. A liberdade está inserida no princípio do livre arbítrio inerente a cada pessoa para escolher o seu próprio caminho, que em linhas simples, se resume na escolha entre o Bem ou o Mal. A Igualdade está reivindicada pelo princípio de que entre os cristãos, revestidos do homem novo pelo batismo, não se faz mais distinção entre “judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus”. (Gal. 3, 28) A Solidariedade foi instituída no maior mandamento cristão: “Amia ao próximo como a ti mesmo”. O amor é a palavra chave do cristianismo: amor a Deus, que é Pai e amos aos irmãos, todos filhos de Deus.

 

Esse comportamento novo, revolucionário, deixou perplexo o mudo antigo. Conhecemos o testemunho dessa perplexidade através da jóia de documento que é a Carta a Diogneto (um pagão culto), escrita por um cristão anônimo, por volta do ano 120, em pleno apogeu do então universal Império Romano. Diogneto estava intrigado com a nova religião cristã que se espalhava tão rapidamente por todo Império. Impressionou-o a maneira como os cristãos testemunhavam o amor que tinham uns para com os outros. Perguntou então Diogneto: “Qual é esse Deus no qual confiam e como veneram [...] que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros?” Aqui transcrevemos uns trechos da resposta do Autor cristão anônimo: “Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular[...] Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira. Moram na terra e são regidos pelo[...] Amam todos e por todos são perseguidos[...] São pobres, mas enriquecem muita gente[...] Fazendo o bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebesse a vida”. Foi a revolução que mudou o interior de cada cristão e essa conversão pessoal explodiu pelo resto do mundo. A dignidade da pessoa humana é a grande novidade admirada por Diogneto.

 

Passados dezoito séculos da difusão do cristianismo, o mundo conheceu outro forte e violento abalo que destruiu parte das bases opressoras construídas pela humanidade ocidental de então. O brado que entoaram os revolucionários foi: Liberte, Egalité et Fraternité. Os revolucionários desmontaram pedra por pedra a Bastilha, o símbolo tangível da Opressão, da Intolerância, da Morte, da Censura. Logo de saída e em agosto de 1789, a Assembléia dos Estados Gerais da França, convocada sob pressão do povo, pelo Rei absolutista Louis XVI, foi o sinal para a queda do Antigo Regime. A partir das idéias de Rousseau, a eloqüência vibrante do Abbé Sieyès lança seu famoso panfleto, logo na primeira sessão da Assembléia: “O que é o Terceiro Estado” (ou seja o povo em geral, sendo o 1º Estado, o Alto Clero e o segundo, a alta Aristocracia, que juntos, segundo o Panfleto, não constituíam mais do que 1% da população francesa, mas que só eles detinham o poder e as propriedades, e os dois dos três votos dos Estados Gerais). O próprio Sieyès responde: “O terceiro Estado somos todos nós”. Foi logo elaborada e aprovada a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” que definiram os direitos naturais de igualdade: todos os homens nascem iguais. Mas essa primeira Declaração de Direitos, embora um grande avanço na construção dos direitos humanos, restringiu-se aos homens (não incluía as mulheres) desde que eles fossem proprietários e não camponeses sem terra, desde que fossem brancos e ocidentais e não negros, indígenas ou asiáticos.

 

Este movimento, que transtornou a face da humanidade ocidental de então, proclamou as três idéias básicas, fundamentais, da dignidade humana, expressas pela Revolução do cristianismo: a Igualdade entre os Homens; a Fraternidade, ou Solidariedade que deve reger a relação entre os seres humanos. Todos valores profundamente cristãos, entranhados na cultura ocidental, desde a introdução do cristianismo.

 

A Revolução Francesa, apesar de seus princípios, não foi feita por cristãos; ao contrário, foi em grande parte feita contra eles. Jacques Maritain, o grande teólogo francês, em sua obra Humanismo Integral, define bem essa contradição: “Por culpa de um mundo cristão infiel aos seus princípios, encontra-se um profundo ressentimento contra o mundo cristão, e não apenas contra o mundo cristão, mas (e essa é a tragédia) contra o próprio cristianismo, que transcende o mundo cristão e não poderia ser confundido com ele. Ressentimento contra aqueles que não souberam realizar a verdade de que eram portadores, ressentimento que brota contra essa própria verdade”.

 

Passam-se outros cento e cinqüenta anos. Depois dos horrores que os homens provocaram durante a Segunda Guerra Mundial, de destruição, de racismos, de violências e de mortes, emerge a construção das Nações Unidas, tentativa de entendimento da humanidade para a garantia da paz entre os povos. Dela surge a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” (1948). Assinada por toas as nações democráticas e inscritas nas cláusulas pétreas das Constituições de todos os Estados, igualmente democráticos, os princípios contidos nessa Declaração busca promover e garantir os ideais da humanidade que dignificam a pessoa. Todos seus Direitos estão basicamente substantivados no 1º dos seus 30 artigos: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”.

 

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos estão impressos os ideais e as propostas que a Revolução do cristianismo trouxe à humanidade: liberdade, igualdade e fraternidade.

 

Aí está o fio que me levou a aproximar fenômenos históricos tão distantes no tempo, no espaço, nos seus objetivos. Os valores imanentes trazidos pela revolução efetuada pelo Cristianismo forjaram os princípios Revolução Francesa e os da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Apesar das realidades contrárias, esses princípios perpassam os séculos e estão presentes até nossos dias, na era da Globalização. A busca e a luta pela valorização e pela promoção da dignidade da pessoa humana estão sempre presentes.

 

Estamos juntas com o teólogo Hans Küng quando afirma “que nosso globo não poderá sobreviver sem uma ética global, uma ética mundial”. A construção dessa ética global cabe a cada um de nós, na luta pela instauração de uma nova civilização da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade, onde a dignidade humana será respeitada e prevaleça.

H. KÜNG. A Igreja Católica . Rio de Janeiro, Objetiva, 2002.